A superação da violência

A Campanha da Fraternidade deste ano nos provoca a construirmos caminhos de superação da violência. O antídoto para a violência é o amor. Ele é a base para a convivência humana fraterna e solidária. Só a lógica do amor é eficaz diante das ações violentas. “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), disse Jesus. Ele nos revelou que temos um Pai que nos ama a todos como filhos e filhas, nele se constrói a fraternidade. Ele próprio, na sua Paixão e Morte sofreu a violência e a injustiça, mas, unicamente motivado pelo amor soube transformar em fonte de vida e paz. A verdadeira paz é aquela oferecida pelo Ressuscitado aos seus discípulos: “A paz esteja convosco” (Jo 20, 19). A própria missão de Jesus testemunha seu ensinamento na bem-aventurança: “Bem-aventurados os que promovem a paz” (Mt 5,9). Os valores cristãos da fraternidade universal, da dignidade e sacralidade da vida humana, a misericórdia e o perdão, estão entre as principais contribuições que podemos oferecer, como cristãos, para a superação da violência.

Para edificar a paz é preciso eliminar as causas das discórdias entre as pessoas. As grandes desigualdades econômicas, a ambição do poder, as discriminações, a cultura do “descarte” que não valoriza a pessoa humana, são algumas das causas da crescente violência. Porém, a raiz última de todo ódio e violência está no coração humano, “pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções” (Mt 7,21). É o coração humano que precisa ser pacificado através de uma espiritualidade integradora, que não vê no outro um risco para minha vida e, por isso, que deve ser combatido e eliminado (cf. Texto Base da CF 2018, n. 172). A espiritualidade cristã vê no outro ser humano a imagem de Deus, que deve ser amado e cuidado, não porque mereça, mas gratuitamente.

O que eu tenho feito para ajudar a construir uma cultura da paz? Atitudes bem simples são muito significativas, como a capacidade de empatia e a tolerância diante das atitudes adversas das pessoas com quem convivemos na família ou trabalho. Mesmo quando devemos denunciar injustiças, a verdade deve ser libertadora e os meios pacíficos. Também, saber alimentar conversas sobre tudo o que edifica, que é positivo. As palavras podem ser muito agressivas ou podem ser promotoras de reconciliação e paz. Aprofundar a compreensão das causas da violência, que normalmente têm uma relação direta com a exclusão social, ajuda a ter opiniões e posturas mais claras.

Especificamente para os cristãos, o Evangelho, a partir da vida e missão de Jesus, apresenta alguns critérios de ação. Jesus mostra que a misericórdia supõe e supera a justiça. A misericórdia, a solidariedade e o desejo de superação devem fundamentar a ação de todos diante da injustiça e da violência. Só a misericórdia é capaz de restaurar a pessoa nas suas relações consigo mesma, com a família, com a comunidade e, também, promover o bem do agressor e da vítima. Esta justiça restaurativa vai além do modelo punitivo, que encontra historicamente muita dificuldade de renovar as pessoas, por se basear na repressão e vingança.

Enfim, somos todos irmãos quando nos reconhecemos unidos no rosto de Cristo e, como Ele, confiamos no amor do Pai e cultivamos a proximidade, a compaixão e a acolhida. Caminhamos com Ele, neste tempo quaresmal, que ao vir a este mundo foi vítima do ódio humano. Aprendamos dele a superar todo o mal pelo bem. Com a força do Ressuscitado, unamo-nos na construção da paz.

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta