A violência em debate

A Campanha da Fraternidade deste ano, que será lançada na Quarta-feira de Cinzas, início da caminhada quaresmal, traz para o debate o tema da violência e sua superação. Com certeza não esgotaremos este tema, pela sua amplitude e pela sua complexidade, durante o tempo quaresmal, mas deseja-se “refletir a realidade da violência, rezar por todos os que sofrem violência e unir as forças da comunidade para superá-la” (Texto Base CF 2018, n. 8). O objetivo geral proposto é “construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência” (Texto Base CF 2018, n. 15). Olhando para a realidade da violência no Brasil, somos menos de 3% da população mundial, mas respondemos por 13% dos assassinatos do mundo. Em 2014, por exemplo, foram 59.627 mortes (cf Texto Base, n. 18). Não podemos nos conformar com esta realidade, achando que é normal ou que não tem solução ou até que existem algumas formas de violência que são “culturais”. A violência é sempre um mal e é uma produção humana, nunca natural, pois o ser humano foi criado para a comunhão e a fraternidade.

Desde a chegada dos europeus, a violência marca nossa história. A compreensão da superioridade do colonizador branco em relação aos índios e negros marcou as relações sociais que perduram até hoje. Esta diferenciação excludente, desde a colonização, produz uma violência que resulta da desigualdade econômica. Ao gerar exclusão e perpetuar desigualdades sociais, a economia produz violência e morte. “Digamos NÃO a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui”, disse nosso Papa.

Dentre as várias formas de violência, algumas são destacadas no Texto Base da Campanha da Fraternidade, para serem debatidas e superadas. A primeira é a violência racial. O preconceito e a violência atingem os negros, os índios e, recentemente, no Brasil os migrantes. Os jovens também são vítimas da violência, sobretudo quando ligados ao tráfico de drogas. A maioria é formada de jovens negros, do sexo masculino. O número de homicídios por arma de fogo cresceu 592,8% entre 1980 e 2014 (cf. Texto Base, n. 81). A violência doméstica também é preocupante, pois, normalmente, ela permanece velada. A violência contra a mulher acontece, normalmente, dentro de casa (71,8% dos casos), sendo, normalmente, o parceiro o agressor. Também as crianças e adolescentes sofrem violência dentro de casa, pelos abusos sexuais, ataques verbais ou negligência no cuidado e educação. A pobreza, que atinge sobretudo as crianças, é a maior violência: “cerca de 1 bilhão de crianças vivem na pobreza no mundo” (cf. Texto Base, n. 95). Segue a lista das formas de violência com a exploração sexual e o tráfico humano, que constitui uma das três atividades criminosas mais rentáveis, ao lado do tráfico de drogas e de armas. 75% das vítimas do tráfico de pessoas são mulheres e meninas. Visível é a relação da violência com o narcotráfico, que movimenta 400 bilhões de dólares por ano. O combate às drogas atinge, normalmente, os traficantes em pequena escala e os usuários, o que leva ao aprisionamento e a superlotação dos cárceres. Dos 650 mil presos no Brasil, 40% estão envolvidos com drogas e o sistema prisional não consegue recuperá-los para uma reinserção social, antes, aumenta ainda mais a violência. Há ainda a violência ligada à política, à corrupção, ao fundamentalismo e intolerância religiosa, às redes sociais e ao trânsito, bem como tantas outras.

Nos próximos artigos continuaremos a aprofundar este debate e apontar caminhos para construirmos uma cultura da paz. Ao caminharmos para Jerusalém, cidade da paz, no tempo quaresmal, construamos projetos de paz!

Dom Adelar Baruffi – Bispo de Cruz Alta