LOMBALGIA – Seu estilo de vida pode causar dores nas costas

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Difícil encontrar quem nunca tenha reclamado de dores na região lombar. Segundo a OMS, cerca de 80% da população tem ou terá, em algum momento da vida, esse tipo de dor. No Brasil, ela lidera as causas de afastamento do trabalho, mas não se restringe apenas aos adultos – crianças e adolescentes são cada vez mais presenças recorrentes em consultórios. Sedentarismo, obesidade, má postura, envelhecimento e algumas doenças sistêmicas podem favorecer e contribuir para o surgimento desse tipo de dor. O ortopedista e traumatologista do IOT, Jean Marcel Dambrós, especialista em cirurgia de coluna vertebral, aponta nesta entrevista especial as principais causas da lombalgia, como é feito o tratamento e sobre a importância da atividade física como prevenção das dores lombares.

O que é lombalgia?
Dr. Jean Marcel Dambrós: Lombalgia é a popular dor nas costas. A coluna lombar é a parte mais baixa da coluna, que fica localizada logo acima das nádegas. A lombalgia não é considerada uma doença em si, mas sim um sintoma que pode indicar a presença de alguma doença,sendo a segunda principal causa de consulta médica no mundo inteiro (fica apenas atrás do resfriado comum).

O que causa a lombalgia?
Dr. Jean: Mais comumente, a lombalgia é um sintoma relacionado com sobrecarga mecânica e com a degeneração (envelhecimento) da coluna. Mas, ela também pode ser um sintoma de alguma doença sistêmica. As causas de lombalgia são várias, sendo que as mais comuns são:
Insuficiência muscular – causada, em especial, pelo sedentarismo e piorada por erros posturais e ergonômicos.
Lombalgia aguda – é uma crise de dor lombar, normalmente durante apenas alguns dias. Pode ocorrer após esforços físicos, com flexão (“dobrar”) da coluna ou movimentos de torção. Em geral há uma grande contratura muscular associada.
Artrose – com o envelhecimento, as cartilagens da coluna vertebral (principalmente os discos) degeneram, e, com a sobrecarga que a coluna recebe em determinados momentos, podem ocorrer dores. O envelhecimento e a degeneração são eventos normais que ocorrem em todas as pessoas. O que varia é o grau de degeneração e a velocidade com que ela se instala. Nem todas as pessoas com artrose têm dor, e mesmo naquelas que têm sintomas, não há uma relação direta entre o grau de artrose e a intensidade dos sintomas.
Hérnia de disco – é uma causa comum de dor nas costas, em grande parte dos casos ocorrerá também dor na perna, por comprometimento de uma ou mais raízes nervosas que saem da coluna.

Quais os principais sinais e sintomas da lombalgia?
Dr. Jean: A lombalgia caracteristicamente é a dor que ocorre entre a última costela e a prega glútea. Pode ser aguda ou crônica. A aguda normalmente é chamada de “mau jeito”. Ocorre uma crise de dor de forte intensidade normalmente depois de um esforço físico. Quando a dor se prolonga por mais de 12 semanas, passa a ser considerada crônica. Costumam ser dores de menor intensidade que a lombalgia aguda, mas são constantes e limitam a qualidade de vida. Normalmente não há outros sintomas além da dor na parte baixa da coluna.

Como evitar que uma lombalgia aguda se torne crônica?
Dr. Jean: Caso sejam identificados fatores de risco, como erros posturais, é necessário corrigi-los e evitá-los. A prática de atividades físicas é de vital importância, pois a melhora das condições musculares previne as recidivas e a cronificação da dor. Durante atividades que exigem carregamento de peso deve-se evitar dobrar a coluna e tentar fracionar o peso, essas também são recomendações válidas. A utilização de colchão e travesseiros adequados é mais uma medida que pode ajudar neste objetivo.

Como é feito o diagnóstico?
Dr. Jean: O diagnóstico da lombalgia é clínico, feito durante uma consulta médica, através das informações dadas pelo paciente. A localização da dor, o tipo, a duração, os fatores desencadeantes e de alívio – todos são pesquisados pelo médico. Em mais de 90% das vezes o diagnóstico e a causa podem ser estabelecidos apenas com a anamnese e o exame físico, sem necessitar a realização de nenhum exame complementar. Em casos selecionados, há indicação de se realizar radiografias e eventualmente uma ressonância magnética.

Como tratar a lombalgia?
Dr. Jean: Nas crises agudas é recomendado um curto período de repouso – no máximo três dias – e o uso de medicação analgésica e anti-inflamatória. Em casos selecionados podem ser prescritos também relaxantes musculares. Os casos crônicos são tratados de forma individualizada, de acordo com as características e possibilidades de cada paciente. Nestes casos, o ponto comum do tratamento é a recomendação de exercícios de reabilitação física.

Como prevenir?
Dr. Jean: A medida mais importante na prevenção é a prática de atividades físicas que envolvam alongamento e reforço dos músculos envolvidos na estabilização da coluna – abdominais, extensores do tronco, musculatura pélvica e os glúteos. A manutenção do peso corporal dentro da normalidade também é importante, tendo em vista que o excesso de peso leva a uma sobrecarga crônica dos discos e articulações da coluna. A melhora na postura também é importante, principalmente para pessoas que permanecem longos períodos do dia sentadas.

A lombalgia está associada a outras doenças?
Dr. Jean: Normalmente a lombalgia ocorre como um sintoma isolado, não ligado a outras doenças. Porém, pode ser sinal de alerta para várias doenças. Entre as mais comuns estão a hérnia de disco, a espondilólise, fraturas osteoporóticas, infecções e deformidades da coluna.

Hoje a dor nas costas já não é mais exclusividade dos adultos. Como proteger as crianças?
Dr. Jean: Têm-se tornado cada vez mais frequente recebermos no consultório crianças e adolescentes com queixas de dores nas costas. Sem dúvida nenhuma, a causa central disto é o estilo de vida das gerações mais novas, com a diminuição de atividades físicas e brincadeiras ao ar livre. Crianças que passam o dia todo em casa, em frente a computadores e videogames, são as principais vítimas. É necessário que as crianças sejam desde cedo estimuladas a terem hábitos de vida mais saudáveis, praticando esportes, por exemplo. Também há uma epidemia de obesidade na sociedade como um todo, que precisa ser fortemente combatida, pois o excesso de peso também está associado com uma maior incidência de lombalgia.

Muito se fala em lombalgia ocupacional. Que medidas podem ser tomadas para não comprometer a saúde do trabalhador?
Dr. Jean: Determinadas atividades são consideradas como fator de risco para ocorrência de lombalgia. Profissões que exigem períodos prolongados em pé ou sentado, carregamento de peso excessivo, posturas inadequadas e estímulos vibratórios, todas são associadas com maior incidência de dor lombar. Assim sendo, evitar tais atividades, ou melhorar a maneira como são realizadas, terá impacto a longo prazo na vida do trabalhador. Tomando como exemplo uma profissão em que se passe o dia todo sentado, se recomenda a realização de pausas frequentes para levantar da cadeira e fazer alguns minutos de alongamento.

Como vimos, a atividade física pode ajudar a prevenir a lombalgia. Seria ela a principal aliada na prevenção dessas dores?
Dr. Jean: A atividade física é fundamental para prevenir dores nas costas. O sedentarismo é tido hoje como o grande vilão quando se pensa em lombalgia.

FOTO Dr Jean
Créditos: ASCOM IOT
Legenda: Dr. Jean Marcel Dambrós